sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Frank Farias - O monstro de mil faces

Seis horas, quando o sol se põe, é a hora dos espíritos das trevas encarnarem na alma das pessoas comuns e povoarem nossa realidade com medos, pesadelos e agruras, mas um ditado é bem certo: “Não há mal que não venha para o bem”. Então, é nessa hora de trevas que a alma de Frank Farias é atormentada por muitos dos seus outros eus, espíritos capazes de gritar letras e melodias que falam da morte, da solidão e da realidade negra renegada por todos – por mim, inclusive. Frank Farias é cantor, compositor e já ganhou inúmeros prêmios em festivais de música e cultura em Teresina. Foi nas décadas de 70 e 80, e ainda é, o artista/músico mais performático em palco e sem igual. Nessa Sexta-Feira 13 não podíamos deixar passar o que o Frank Farias representa no meio cultural, em termos de músicas e performances, por isso a Zaboomba entrevistou não somente o cantor e compositor Frank Farias, mas também o Drácula, o Monstro, a Morte, a criatura em pessoa.

Frank Farias - O Lobisomem (Foto: Maria Aparecida Vieira)

Zaboomba: Sobre seus monstros, existe um nome para eles? 

Frank Farias (a criatura): Isso é uma incorporação do artista dentro de algum contexto. As pessoas não entendem a mensagem. A música do caixão, por exemplo, foi proibida em 78, dentro da Ditadura. Até hoje, se eu realizar o show da maneira como era em 78, algumas cenas ainda seriam proibidas, mesmo com essa liberdade democrática. 

Z: Os monstros sugiram disso? 

C: Passei dezesseis anos sendo o cantor mascarado. Fui repórter policial, era da mídia, trabalhava na mídia, então vi que para a própria mídia, a nossa mídia, tinha que acontecer lá fora para ‘valer’ aqui no estado, tinha que acontecer lá primeiro. Mas nunca vai ninguém, até hoje não vai ninguém. Sai daqui para acontecer lá fora, aí vem com a bola cheia e dizem: ‘O Frank aconteceu em São Paulo, nos Estados Unidos..., em qualquer lugar, mas daqui não vai ninguém. Aí eu sentia o seguinte: como era um cara anti-mídia, eu via mídia em cima de mim. Aí passei dezesseis anos sendo o cantor mascarado do Piauí e ainda hoje sou, porque resolvi cantar o que o povo não gosta de ouvir, mas que tem que parar para ouvir. Resolvi cantar o suspense, o terror, com toda essa roupagem para dar sentido às pessoas olharem, ou com raiva ou com medo. 

Z: Quando você se transforma, desperta algum sentimento de vingança, ódio ou coisas assim? 

C: Sim. É uma maneira de se expressar para que as pessoas entendam mais a mensagem. Eu encarno o personagem. Por exemplo, o Lobisomem, incorporo o personagem lobisomem, então jogo, expresso aquilo que eu quero: a mensagem, a composição, uma mensagem, seja boa ou ruim, mas que tenha alguma coisa. 

Z: As pessoas se assustam? 

C: Não se assustam, mas, pelo menos, chama atenção e vão te ouvir. Você grava com o seu rosto bonitinho e ninguém aguenta dez minutos olhando para sua cara, com toda aquela beleza. Então, resolvi cantar o terror, o suspense, para que tu olhes para mim, sabe. Quando eu volto no show com outra cara são duas horas de shows e tu vês mil caras diferentes, não é um show monótono, uma coisa chata. Eu acho que a roupagem completa dá um sentido ao seu trabalho. Agora, não pode ser uma roupagem qualquer, deve ser uma que seja equivalente com aquilo que você faz. Eu vejo muitas bandas que vestem uma roupagem e canta um estilo musical com aquela mesma cara, entende. 

Z: Ainda faz sentido essa transformação? 

C: Sou independente. Não sigo moda, eu faço a moda. Mas o que é moda? Eu faço aquilo que me faz bem, eu canto o que gosto, o que eu quero, independente de alguém gostar ou não. Eu me satisfaço com isso, eu me amo e, naturalmente me amando, eu amo naturalmente o próximo. Eu canto aquilo que gosto, independente da mídia, da onda ou da moda. 

Z: As criaturas são iguais ou diferentes do Frank? 

C: Iguais. Junto o útil ao agradável, como diz o meu primeiro trabalho, "Frank Farias de corpo e alma". Então, eu incorporo, jogo tudo aquilo que eu quero falar, cantar, gritar, tudo para chamar atenção, para que a pessoa entenda aquela mensagem. Nessa incorporação eu junto o útil ao agradável, não é simplesmente se tornar um palhaço. Você tem que ter uma manha, uma coisa que leve o útil e o agradável, porque cantar é expressar. Você tem que sentir.  


Primeiro LP - "Frank Farias de Corpo e Alma" (Foto: Maria Aparecida Vieira)


Z: O que faz mais sentido hoje: o Frank ou as criaturas? 

C: Os dois. Sempre juntos, iguais. Só canto o que sinto. 

Z: Então um só pode ‘ser’ se o outro existir? 

C: Não. Esse é os dois. Eu só canto o que eu sinto na pele. Tem o repentista, por exemplo. Ele brinca com a criatividade se você der um tema para ele, ele brinca com um tema qualquer, brinca com a realidade, joga com aquilo. Mas eu não faço isso. Tenho que sentir na pele, correr nas veias para poder expressar. Eu não consigo cantar friamente, eu incorporo e jogo de corpo e alma, por que quando você canta, grita, berra, qualquer coisa, a pessoa sente aquele impulso, da sua palavra, do seu canto. É isso que eu quero: juntar o útil e o agradável, juntar cenário e conteúdo, para que entendam a mensagem, e até hoje nunca me entenderam, por exemplo, quando fui proibido com a música “Morte” e a sua mensagem. 


(Foto: Maria Aparecida Vieira)

Z: Me explica essa mensagem. 

C: A mensagem: o que é o túmulo, o caixão. Diziam ‘Esse cara é louco’. A diferença é que chamo de arte ou o que diabo for. Como não posso agradar gregos e troianos, primeiro faço o que eu gosto. Tive propostas quando gravei meu primeiro LP. O cara dizia ‘Frank, você vai gravar isso’. Eu dizia ‘Não gravo. Tu quer me produzir, produzir o que eu sou, ou tu quer me fazer um boneco, um fantoche?’. Então, como é que eu vou cantar uma música que eu não gosto? Não sou hipócrita. Na música “Morte” é assim: a maior hipocrisia do ser humano se chama velório. Tu nunca me fez uma visita e no dia que eu morro tu vai me ver; tu nunca rezou pela minha alma, no dia que eu morro tu vai rezar; tu nunca me trouxe uma flor, no dia que eu morro tu me traz uma flor; tu nunca acendeu uma vela pro meu caminho, eu vivo, mas quando eu morro, tu acende. Bom, naquela época e até hoje não entendem, que o que fiz e que ainda faço é porque a música “Morte” nunca morreu. As pessoas não entendem aquela explosão final, quando quebro o caixão, que é quando o homem se torna hipócrita. Se ele vai para o céu ou inferno? Só quem sabe é Deus. 


(Foto: Maria Aparecida Vieira)


Z: Como está a expressão da música? 

C: Quase banal. Hoje você tem que falar bobagem, coisas bobas, palavrões. Eu fiz uma música chamada “Cara”, onde eu uso a linguagem do cara, uso as gírias, os palavrões, mas sinto que as pessoas a cantam por aí. Eu fiz essa música para outro músico, que pode ser até eu mesmo, contando a própria história. Então, criamos um personagem para essa música. Assim, acho que toda música deve ter uma mensagem, um conteúdo. 

Z: Se você se transformasse agora, o que esse monstro iria fazer? 

C: Eu criei um personagem que não morre. Tanto faz há quarenta anos como agora, ele não morre, é a mesma mensagem. Eu não faço músicas descartáveis. Eu gosto de cantar uma mensagem que leve exemplo de vida, uma coisa que não morre nunca, eu não faço coisas para morrer. Há quarenta anos continua a mesma coisa, que chama a pessoa para a mesma mensagem. Então, continuaria fazendo música do mesmo jeito, mesmo estilo. Se um dia alguém botar na parede, mesmo que para fazer um arranjo eu direi ‘Cara, eu gosto desse jeito aqui e isso não vai fugir do meu sentido, do que quero ou da minha essência musical’. 


Um comentário:

  1. Frank Farias, esse Cara que canta o que sente e toca o que impacta em rock a recepção curiosa. Show man rock!

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